O Programa de Prevenção de Acidentes de Trânsito GT CIPA POLO traz nesta edição o artigo do professor Paulo Ricardo Meira. Neste ensaio, o autor apresenta dados e reflexões a respeito da mistura álcool e direção. Uma excelente oportunidade para lembrarmos dos perigos e armadilhas que envolvem a celebração do carnaval. Principalmente quando os condutores voltam da fola dirigindo após o consumo de bebidas alcoólicas.

Uma dose de bom senso

“Os maus vivem para comer e beber. Os bons comem e bebem para viver”.
(Sócrates)

Encontra-se alusão ao consumo de álcool ao longo de toda a história da humanidade, segundo estudo do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas – CEBRID[1]. Registros arqueológicos revelam que os primeiros indícios sobre o consumo de álcool pelo ser humano datam de aproximadamente 6000 a.C., sendo portanto, um costume extremamente antigo e que tem persistido por milhares de anos.

A noção de álcool como uma substância divina, por exemplo, pode ser encontrada em inúmeros exemplos na mitologia, sendo talvez um dos fatores responsáveis pela manutenção do hábito de beber ao longo do tempo. A própria Igreja Católica tratou de deificar a figura do vinho, ligando-o diretamente a grandes passagens da Bíblia, com uma ênfase toda especial no relato da Última Ceia. Ora, como uma bebida preconizada pelo próprio Cristo poderia nos fazer mal? Bem, naquela época não havia automóveis…

Já dizia no tempo de Cristo o poeta latino Ovidio[2] que “o vinho dá coragem e torna o homem apto para a paixão”. Uma frase clássica nos brindes de reuniões de enófilos é a “in vino veritas”, ou seja, o álcool faria transparecer a verdadeira face das pessoas, fosse ela de uma índole boa ou ruim. Não por acaso o Dr. Jekyill da obra do escocês Robert Luis Stevenson transformava-se no repulsivo Mr. Hyde ao tomar um determinado preparado que separava os aspectos bons e maus de sua personalidade. Era a época, então, do absinto na Europa, bebida que para ser comercializada hoje no Brasil teve de reduzir sua concentração em graus ºGL.

Como o homem se liberta de alguns pudores e auto-censura na ingestão de bebidas alcóolicas, o antigo Senado Romano costumava tomar – literalmente – suas decisões mais importantes em duas sessões de reuniões. A primeira, regada a vinho e farta comilança, era a sessão de brainstorming, onde as soluções mais diversas para determinada questão eram colocadas sem restrições.

Na segunda sessão, em completo jejum, eram analisadas à luz do bom senso as idéias criativas do dia anterior e escolhia-se a aparentemente mais sábia. Inicialmente, as bebidas tinham conteúdo alcoólico relativamente baixo, como por exemplo o vinho e a cerveja, já que dependiam exclusivamente do processo de fermentação. Com o advento do processo de destilação, introduzido na Europa pelos árabes na Idade Média, surgiram novos tipos de bebidas alcoólicas, que passaram a ser utilizadas na sua forma destilada.

Nesta época, este tipo de bebida passou a ser considerado como um remédio para todas as doenças, pois “dissipavam as preocupações mais rapidamente do que o vinho e a cerveja, além de produzirem um alivio mais eficiente da dor”, surgindo então a palavra whisky (do gálico “usquebaugh”, que significa “água da vida”), segundo o CEBRID. O mesmo ocorre na língua francesa, onde aguardente (nossa cachaça, conforme determinação do Governo Federal, que se ocupa de tratá-la como a nouvelle vague da exportação brasileira, sobretudo par países da Europa) se chama de “eau de vie”, a mesma água da vida.

Assim, combater o álcool parece em si inócuo, por tratar-se de uma tradição cultural milenar da humanidade. O automóvel, entretanto, tem um século de história, e parece ser mais sensato ocuparmo-nos de combater o álcool ao volante, mostrando que pode até haver prazer na direção de um automóvel e na ingestão de bebidas alcóolicas, desde que sejam feitos em tempos (preferencialmente, dias) separados.

Conforme o CEBRID, a ingestão de álcool, mesmo em pequenas quantidades, diminui a coordenação motora e os reflexos, comprometendo a capacidade de dirigir veículos, ou operar outras máquinas. Pesquisas revelam que grande parte dos acidentes são provocados por motoristas que haviam bebido antes de dirigir. Neste sentido, segundo a legislação brasileira (Código Nacional de Trânsito, que passou a vigorar em Janeiro de 1998) deverá ser penalizado todo o motorista que apresentar mais de 0,6 gramas de álcool por litro de sangue. A quantidade de álcool necessária para atingir essa concentração no sangue é equivalente a beber cerca de 600ml de cerveja (duas latas de cerveja ou três copos de chopp), 200 ml de vinho (duas taças) ou 80 ml de destilados (duas doses).

Entretanto, não existe essa linha mágica que se o indivíduo está logo abaixo de 0,6 gramas estaria apto a dirigir, ou que ao encostar no limite de 0,6 o condutor se torna um infrator e está automaticamente em péssimas condições de dirigir. O nível de alcoolemia é um contínuo, e seu reflexo no organismo vai desde o peso da pessoa, nível de descanso ou estresse e sua alimentação.

Na Suécia, a tolerância de alcoolemia é zero, e um inocente bolo de chocolate pode, por sua fermentação no aparelho digestivo, provocar uma leitura errônea dos testes medidores. Se, no entanto, beber e dirigir é um risco, por que motivo algumas pessoas o fariam de forma consciente? Pode-se pensar que, de um lado, alguns indivíduos poderiam desenvolver o pensamento mágico de invulnerabilidade do tipo “sei até aonde posso ir”, “me conheço”.

Por outro lado, se em campanhas publicitárias for demonstrado que a mistura de álcool e direção é perigosa, isso poderia mesmo atrair pessoas com tendências auto-destrutivas[3] ou que buscam emoções em situações-limite, como a exemplo dos personagens do filme “Crash – Estranhos Prazeres”, baseado na obra homônima de J.G. Ballard, onde o ápice de adrenalina e volúpia sexual era obtido pela quase-morte em acidentes automobilísticos.

Normalmente, entretanto, as pessoas aceitam um nível menor de risco. O holandês Gerald Wilde, professor emérito de psicologia da Universidade de Queen, em Ontário, Canadá[4], explica em sua teoria da “homeostase do risco”[5], que o indivíduo possui um nível de risco tolerado, que escolhe aceitar para maximizar o benefício global esperado de uma atividade. Por exemplo, aceita o risco de um assalto para não deixar de se divertir à noite indo a uma boate. O grau de conduta de correr-se o risco e a magnitude de perdas devidas a acidentes e doenças em função de um estilo de vida do indivíduo são mantidos através do tempo, a menos que haja uma mudança no nível de risco tolerado.

Não obstante, a percepção de risco pelo condutor a 80 km/h em uma rodovia pode mudar se ele passa a dirigir um automóvel dotado de sofisticados equipamentos de segurança, como freios ABS, airbags frontais e laterais e cintos de segurança com pré-tensionadores. Dessa forma, o mesmo condutor acredita que pode aumentar sua velocidade para, digamos, 110 km/h, correndo o mesmo risco de estar menos veloz com um carro menos potente.

Exagerando um pouco, poderíamos crer que indivíduos com veículos em condições precárias (nos quais o condutor pouco confia) causariam menos risco aos demais usuários da via (outros motoristas, pedestres, ciclistas), do que proprietários de picapes importadas de última geração.

É claro, contudo, que a inspeção veicular a ser implantada no País tirará de circulação automóveis sem condições mínimas reais de segurança e excessivos poluidores do ambiente. Segundo experts da área de comportamento do consumidor[6], publicidade de campanhas sociais como prevenção de AIDS, drogas e álcool ao volante deve ser planejada de forma a não criar uma evitação da mensagem por parte do público. Se apenas o lado negativo, trágico é mostrado, com cenas de sangue e desmembramentos, sem uma válvula de escape ao final da mensagem de como aquilo pode ser evitado, ou seja, se não há uma suavização positiva ao final, como “antídoto” para as cenas fortes mostradas, a mensagem persuasiva é simplesmente ignorada, pois não é aceita como sendo possível para o indivíduo.

O público-alvo se choca, mas não assimila a mensagem como sendo para si, pois afinal de contas, “isso jamais aconteceria, logo comigo!”. Como o álcool provoca uma sensação de relaxamento e bem-estar iniciais, o indivíduo embriagado sente realmente que está dirigindo melhor, pois está menos tenso na direção. O álcool, todavia, não é o único vilão.

Uma aferição de alcoolemia realizada pelo Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas – CETAD da Universidade Federal da Bahia[7], encontrou algum nível de álcool em 61% de 865 vítimas de acidentes pesquisados. Mas, indo além, encontrou indícios de maconha na urina de 7,7% nos 727 acidentados nos quais se realizou esse exame. Os diazepínicos foram detectados em 3,4%, cocaína em 2,3% e barbitúricos em 1,5%. O problema do álcool está também em quem sofre o acidente, além do causador, pois o corpo humano tem mais chances de entrar em choque se houver um nível de alcoolemia, em cujo caso até mesmo a coagulação de ferimentos é mais demorada.

Assim, cada dose a mais da “saideira” é uma dose a menos de bom senso. Mas esse não é o único “vilão” no trânsito. De acordo com a Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (ABRAMET)[8], parte do problema reside nos medicamentos para as chamadas doenças do frio e alergias. As pessoas recorrem a xaropes para tosse, antigripais e mesmo anti-histamínicos por uma determinada reação alérgica, mas poucos sabem é que muitos desses remédios são soníferos poderosos, que podem causar efeitos colaterais no trânsito. As reações ao volante ficam mais lentas e há o risco de dormir, sobretudo se somados a uma dose – ainda que mínima – de álcool. Passado o frio, contudo, o perigo não diminui, pois mulheres que recorram a anorexígenos (que diminuem o apetite), tornam-se irritadiças, nervosas e distúrbios de sono, que podem resultar em desatenção durante situações eventualmente críticas que necessitariam de uma resposta rápida no trânsito. O correto, tudo indica, é pegar leve. Como diz o slogan da campanha vencedora no Prêmio Detran-RS Publicidade pela Vida, “com passos certos, você vai mais longe.”

REFERÊNCIAS:

[1] O CEBRID está ligado ao Departamento de Psicobiologia – Escola Paulista de Medicina da Unifesp.

[2] MACHADO, José Antonio Pinheiro. Vinhos & Boa Mesa. Porto Alegre: L&PM, 1994.

[3] MYERS, James & REYNOLDS, William. Gerência de Marketing e Comportamento do Consumidor. Petrópolis: Vozes, 1975. 2ª ed.

[4] WILDE, Gerald. Riesgo Deseado? El Comportamiento Humano Ante el Peligro. PDE Publications, 1994.

[5] O leitor interessado poderá acompanhar uma entrevista com o Dr. Wilde na Revista Mobilidade, terceira edição, publicada pelo Detran-RS em setembro de 2002, disponível no site www.detran.rs.gov.br.

[6] ENGEL, BLACKWELL & MINIARD. Consumer Behavior, The Dryden Press, 1995.

[7] Impacto do uso de álcool e outras drogas em vítimas de acidentes de trânsito. ABDETRAN, 1998, 87p.

[8] MOURA, Marcelo. Curou o resfriado, dormiu ao volante. O Globo. Rio de Janeiro, 3 jul. 2002.

Autor: Paulo Ricardo Meira é publicitário e Técnico Superior em Trânsito do Detran-RS.